Rezo para que o futuro continue a reservar-nos o privilégio de privar com profissionais como cabeleireiras e manicures. Torço para que a tecnologia não invente nenhum gadget que nos permita autonomamente fazer um brushing ou arranjar as unhas clicando num botão, sem precisar de recorrer aos serviços dos centros de estética. Seria um crime que as especialistas do ramo se extinguissem.
"Vem pró gelinho?"
"Venho. Tenho marcação."
"Vai ter só que aguardar uns minutinhos porque a Dona Bé veio atrasada e complicou isto tudo."
(eu tenho portanto a obrigação de saber quem é a Dona Bé)
A Dona Bé é então uma senhora na casa dos 55 anos, que tem em cima de si o mundo. A manicure a limar, a pedicure a "dar um jeitinho", a cabeleireira a esticar e a maquiadora a pôr rimel. Todas com conversas cruzadas, aos gritos, para compensar o barulho dos secadores.
CABELEIREIRA- Não acha Dona Bé? Caquilo foi uma pouca vergonha?
DONA BÉ- Acho, mas eu se fosse a outra batia com a porta.
MAQUIADORA- Oh Dona Bé, assim não consigo trabalhar. Não pode mexer a boca senão fica toda borrada.
(e a outra insiste...)
CABELEIREIRA- Isso é o cagente diz assim da boca para fora. Que batia ca porta...Eu cá não sei se teria "corage"
DONA BÉ- Pois não sei...isto só vivendo as situações.
MAQUIADORA- Pronto. Já se me fugiu o lápis. Dona Bé, não se mexa. Oh Célia, não converses agora ca Dona Bé fazes o favor. Assim é difícil.
CABELEIREIRA- Olha Nilde, isto é difícil para todas tá bem? Eu também tou aqui de volta do pente. Se hoje acordaste virada....
MAQUIADORA- Ai eu é que acordei virada? É preciso ter descaramento. Andas há dias a dificultar...inda ontem a Elsa comentava isso e pediu-me para não te dizer, mas olha, prontos, disse. Uma pessoa também não é de ferro.
PEDICURE- Não foi isse que eu disse! Eu só comentei que ......
De louvar este atraso de uns "minutinhos". Senti-me no coliseu romano a assistir a uma luta entre gladiadores de secadores em punho. A DONA BÉ era o Nero.
Sai o Nero de cena, radiante, uma mistura entre Michael Jackson e Duquesa de Alba. Entro eu.
(não faço a menor tenção de dar continuidade ao tema em debate, mas como vou só "pró gelinho", elas dispersam e reinstala-se a ordem possível)
MANICURE- Quer um cafezinho.
EU- Não obrigada. Não bebo café.
(foi então que percebi que a segunda frase seria dispensável. Bastaria dizer "não obrigada")
MANICURE- Então um chá. Uma aguinha.?? Faz bem em não beber café.
(e desenvolve)
(pousa melhor o peito na mesa e continua)
MANICURA- Mas tá com uma carita cansada ..... Atchiiiiiimmm!
(espirra e foge-lhe o alicate)
MANICURA- Ui! Saúde!
(adoro...quando "se saúdam" a elas próprias)
MANICURA- Quer ler uma revistinha ca outra mão? Casa bem jeitosa que comprou o nosso Cristiano. Se eu tivesse dinheiro fazia uma casa dessas. Mas com uma escadaria grande à entrada. Era o meu sonho. Toda amarelinha.
É ou não é de manter? Esta espécie maravilhosa. É!
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