segunda-feira, 30 de maio de 2016

SOCORRO

Quatro noites sem dormir só de pensar que tenho que levar a minha filha ao Centro de Saúde para uma vacina. Chegou o dia.

EU - Bom dia. A minha filha veio dar a vacina do colo do útero.
ELA - Sim, mas tem que tirar senha.

(de notar que o horário da tarde desta unidade de saúde começa às 14h e são 14h01 - ou seja - estamos nós e ELA)

EU - Eu tiro senha mas como não está mais ninguém...
ELA - Sim, mas é para registo.

(máquina encarnada, daquelas do talho, sem cartucho de talões)

EU - Isto não tem talões minha senhora...
ELA - Ah pois, acabaram. Eu passo-lhe um manual então.

(manuscreve num papelinho "01" e dá-me. Estou comovida com o rigor deste registo)

ELA - Agora é só aguardar.

Breve descrição do perfil d' ELA:
- Cabelo preto azeviche, cortadinho pelo queixo em redondo, efeito capacete do tempo das FAMEL, com franja de risco ao meio milimetricamente dividida.
- Pele branca cal, com duas pommettes nas bochechas cor de rosa vivo pronunciado.
- Malhinha cinzenta de gola redonda apertada até ao último botão.
- Sapatos ortopédicos de farmácia (não por patologia física, mas porque "mais vale prevenir")

Ou seria freira, ou trabalharia num Centro de Saúde. Escolheu a segunda opção.
Mas como reprimiu a primeira, é antipática.

Resolve ligar ao marido enquanto eu, a minha filha e a senha esperamos.

ELA - Atão, já almoçastes? (e estala ligeiramente a língua entre os dentes, como que palitando sem palito - uma arte). Deixei tudo prontinho, era só aqueceres...
Tapa o auscultador, como se o marido não pudesse ouvir o que tem para me dizer, e cochicha em surdina : Já pode ir entrando, se quiser. Está lá a colega.

Entramos numa sala pequena onde está a "colega". Essa, coitada, deparou-se com uma escolha bem mais difícil - ou prostituição, ou Centro de Saúde.
- Cabelo loiro platinado. Raízes pretas a 2 terços. Efeito permanente tipo serpentina do Carnaval do ano anterior.
- Unhas quadradas trabalhadas com arabescos nas pontas.
- Peito pousado na secretária.
- 2 a 3 pastilhas Gorila em mastigação, emolduradas por gloss encarnado.

ELA2 - Diga fáchavor.
EU - Venho com a minha filha tratar da vacina do colo do útero.

(bufa primeiro, suspira depois e larga então um guincho)
ELA2 - Oh Iza! Tens aqui uma senhora!!!! Pode entrar no gabinete.

Quase que beijo a Iza quando entro. Nunca uma bata branca e um ambiente esterilizado me causaram tanta felicidade como aqui. Entrego o boletim de vacinas + a senha + a menina.

IZA - Qual braço preferes?
FILHA - É-me indiferente (socorro!!!!)

Injetou. Desinfetou. Carimbou o boletim e disse:
IZA - Vem depois então fazer o reforço, qu' isto com as meningites não se brinca...

(vi jeitos de matar a IZA diretamente com a seringa da vacina)

EU - Meningite?? Mas a vacina que tinha que dar era a do colo do útero!
IZA - Pois claro...que disparate...foi a que dei. Pensei certo mas disse errado. Não faça caso.

Bom, eu "caso" não faço...



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