Cheguei à conclusão que não adianta "bufar" em casa. Sim, não adianta. Aqueles suspiros que damos que no fim fazem trepidar as "beiçolas" (tipo relinchar) enquanto lavamos a loiça, numa de manifesto aos maridos "TAMOS CANSADAS", não adianta. Esqueçam. Senão vejamos:
Relinchamos. "Eles" ouvem. E o inferno começa aqui:
ELE - Qués ajuda?
EU - Quero.
(Funcionou!!!)
ELE - O que é que eu posso fazer?
(Começa logo mal - não queremos que nos perguntem o que precisamos!! Queremos que arregacem as mangas e tomem a iniciativa. Qualquer coisa serve!)
EU - Olha, podes cortar o tomate para a salada, por exemplo.
ELE - Onde é que está o tomate?
(Isto mata)
EU - No frigorífico, na prateleira dos legumes.
(Por um triz não o mandei procurar no armário dos pirex, só para chatear)
ELE - É isto?
(Morte nº 2. Não percebo a dúvida)
EU - É.
ELE - Onde é que está a faca?
(Morte nº 3)
EU - Na gaveta das facas.
ELE - Se calhar vou cortar com esta, porque tem serrilha.
(Morte nº 4 - mudou o registo de "interrogativo" para "afirmativo", mas ainda assim dá conhecimento do procedimento)
ELE - Como é que queres que eu corte?
(silêncio)
ELE - Hãaã? Como é que queres que eu corte?
(silêncio)
(fecho os olhos, respiro fundo)
EU - É indiferente.
(Não me peçam respostas mais compridas do que isto, que eu estou quase a rebentar)
É neste momento que pela primeira vez tomo consciência que a minha cozinha é musical. Tudo faz barulho. A gaveta a fechar, o manuseamento da tábua, os vários golpes. A ideia é mostrar serviço e "eles" precisam de se fazer ouvir.
ELE - Será que chega?
Olho para o resultado. Se disser que vejo, com boa vontade, seis rodelas cortadas, não estarei a exagerar.
EU - Quantos cortaste???
ELE - Um....Corto mais??
(Morte nº 5 - o confronto com a forretice)
EU - Sim.
ELE - Mais um?
(Morte nº 6 - o confronto com a confirmação da forretice)
EU - Não. Mais três.
ELE - O pior é se sobra...porque isto depois de temperado...
(Morte nº 7 - ter de fingir que lhe reconheço o uso desta frase, como sendo dele)
EU - Corta mais três.
ELE - Está bom assim?
Nem olho.
EU - Está óptimo.
(Isto foi um pesadelo que acabou e eu estou quase a acordar)
ELE - Não se tempera?
(Morte nº 8 - the killer is back - o emprego do "se" que se destina a mim, mas sem atribuição de sujeito)
EU - Eu já tempero.
ELE - O que é que faço a "isto"?
(Morte nº 9 - "isto" é a tábua e afins - chamar as coisas pelos nomes parece que a "eles" os diminui)
EU - Põe no lava-loiças.
ELE - Mas cabe? É que "isso" está cheio de coisas.
(Morte nº 10 - não estou a conseguir "dar vasão" e sou repreendida por cima)
EU - Deixa estar. Vai-te sentando e leva a lasanha para a mesa
(Não fosse a aliança, já o tinha mandado pelo ralo do lava-loiças junto com as grainhas...ele cabia!)
ELE - É lasanha? Ah que azar. Foi o que comi ao almoço.
sexta-feira, 25 de setembro de 2015
terça-feira, 22 de setembro de 2015
ELE HÁ COISAS...
"Então, quando é que te vais inscrever no ginásio? Faz tão bem a tudo...à cabeça...."
Peço a Deus que me proteja de ouvir mais uma única vez esta frase da boca do meu marido, enquanto for viva.
Implícitas estão duas questões de fundo que importam explorar:
1- Esta pergunta "en passant" à laia de "preocupo-me com a tua saúde" é uma aldrabice. A preocupação não é comigo, mas com o próprio, que basicamente quer ver tudo no sítio mas não tem coragem de assumir esse traço de machismo. Lamentável.
2- "Faz tão bem a tudo...à cabeça..." é um comentário que nem classifico. Ora bem: Cada um sabe de si e da sua cabeça. A mim e à minha cabeça faz-me bem comer chocolates e ouvir música, que é o que eu gosto. Mas à parte daquilo que a cada um faz falta para equilíbrio da mente, quem disse que eu preciso de alguma coisa que "faça bem à cabeça"?? Isto é "portantos" mais uma mensagem implícita a ler nas entrelinhas: "Estás desequilibrada. Fazia-te bem um desportozinho para libertar a tensão". Entendido.
Posto isto, resta-me então decidir se prefiro mostrar quem manda, não ir ao ginásio e escolher a flacidez. Ou se prefiro ceder (também nisto!!!) e ir inscrever-me.
Demoro cerca de 5min de carro até lá, mas faço render o trajeto a ver se me escapo. Quanto mais tempo demorar, maior a probabilidade de acontecer um imprevisto e adiar esta fatídica inscrição. Circulo a menos de 50km/h, rezando para que alguns dos registos de trânsito que costumo ouvir na rádio comercial se verifiquem "na vida real" e me impeçam de chegar ao destino. Sei lá...um "despiste na via direita", "um nó muito congestionado" que dê origem a "algum abrandamento"... Qualquer coisa serve. Mas nada disto acontece e, para minha desgraça "o trânsito circula com normalidade".
Chegar lá e ver o logotipo do ginásio à porta dá direito a náuseas e afrontamentos.
Dizer boa tarde à rececionista e ouvir como resposta "Bons olhos a vejam" é outro momento que ameaça regurgitação.
Pedir o folheto e verificar que o único horário para o qual estaríamos disponíveis está destinado a CARDIO-EXPRESS é, em si, um momento de CARDIO insuficiência.
Assistir à fauna que vai passando pelas portas rotativas é um episódio espasmódico, dado que versa espécies que estão queimadas pelo sol o ano inteiro e que prezam mais os glúteos e os peitorais do que os próprios filhos.
Neste enquadramento, assinar uma ficha em que me comprometo a nove meses de atividade desportiva com a obrigatoriedade de aviso prévio de um mês caso pretenda rescisão, é pior do que assinar uma declaração de culpa por um homicídio que não cometi.
Mas inscrevi-me! Antes fit e infeliz, do que gorda e radiante. Vou matar o idiota que inventou isto.
Peço a Deus que me proteja de ouvir mais uma única vez esta frase da boca do meu marido, enquanto for viva.
Implícitas estão duas questões de fundo que importam explorar:
1- Esta pergunta "en passant" à laia de "preocupo-me com a tua saúde" é uma aldrabice. A preocupação não é comigo, mas com o próprio, que basicamente quer ver tudo no sítio mas não tem coragem de assumir esse traço de machismo. Lamentável.
2- "Faz tão bem a tudo...à cabeça..." é um comentário que nem classifico. Ora bem: Cada um sabe de si e da sua cabeça. A mim e à minha cabeça faz-me bem comer chocolates e ouvir música, que é o que eu gosto. Mas à parte daquilo que a cada um faz falta para equilíbrio da mente, quem disse que eu preciso de alguma coisa que "faça bem à cabeça"?? Isto é "portantos" mais uma mensagem implícita a ler nas entrelinhas: "Estás desequilibrada. Fazia-te bem um desportozinho para libertar a tensão". Entendido.
Posto isto, resta-me então decidir se prefiro mostrar quem manda, não ir ao ginásio e escolher a flacidez. Ou se prefiro ceder (também nisto!!!) e ir inscrever-me.
Demoro cerca de 5min de carro até lá, mas faço render o trajeto a ver se me escapo. Quanto mais tempo demorar, maior a probabilidade de acontecer um imprevisto e adiar esta fatídica inscrição. Circulo a menos de 50km/h, rezando para que alguns dos registos de trânsito que costumo ouvir na rádio comercial se verifiquem "na vida real" e me impeçam de chegar ao destino. Sei lá...um "despiste na via direita", "um nó muito congestionado" que dê origem a "algum abrandamento"... Qualquer coisa serve. Mas nada disto acontece e, para minha desgraça "o trânsito circula com normalidade".
Chegar lá e ver o logotipo do ginásio à porta dá direito a náuseas e afrontamentos.
Dizer boa tarde à rececionista e ouvir como resposta "Bons olhos a vejam" é outro momento que ameaça regurgitação.
Pedir o folheto e verificar que o único horário para o qual estaríamos disponíveis está destinado a CARDIO-EXPRESS é, em si, um momento de CARDIO insuficiência.
Assistir à fauna que vai passando pelas portas rotativas é um episódio espasmódico, dado que versa espécies que estão queimadas pelo sol o ano inteiro e que prezam mais os glúteos e os peitorais do que os próprios filhos.
Neste enquadramento, assinar uma ficha em que me comprometo a nove meses de atividade desportiva com a obrigatoriedade de aviso prévio de um mês caso pretenda rescisão, é pior do que assinar uma declaração de culpa por um homicídio que não cometi.
Mas inscrevi-me! Antes fit e infeliz, do que gorda e radiante. Vou matar o idiota que inventou isto.
quinta-feira, 17 de setembro de 2015
QUANDO FALHA O GPS...
Pior que furar um pneu, é ficar sem GPS.
Criei com este sistema de navegação uma relação de dependência tal, que fico completamente atordoada se me falha. Ficar sem bateria no telemóvel é grave. Não porque me impede de estabelecer ligações telefónicas, mas sim porque me impede de fazer o trajecto RATO - MARQUÊS DE POMBAL sem ir primeiro à Avenida de Roma. Além de que é uma "voz amiga" que nos acalma no trânsito e que nunca se zanga connosco quando não lhe obedecemos. Há sempre solução.
Mas eis que a tragédia acontece, o telefone apaga-se e com "ele", o GPS.
Nota: episódio passado na província, onde resido.
EU - Boa tarde, diz-me onde fica a Rua do Conde da Serra da Tourega?
XX - Ah, nha sôra desculpe mas ê nâ sou daqui.
(claro que "é daqui"...não fosse transportar três sacos de supermercado em cada mão)
EU - Boa tarde, por acaso sabe onde fica a Rua do Conde da Serra da Tourega?
XX - Rua da Tourega do Conde da Serra...mmmm...
(e repete tudo trocado...estou cheia de pressa, só me apetece pôr primeira e avançar...mas é antipático)
XX - Tênhideia que fica ali para os lados do tribunal. Ou atã lá pra baixo pró pé do Ping Dôce...
(não faz ideia nenhuma, até porque o Pingo Doce e o tribunal estão, aos olhos da Rosa dos Ventos, assim como o Porto está para o Algarve)
EU - Boa tarde, sabe indicar-me onde fica a Rua do Conde da Serra da Tourega?
XX - Iiiiiichhhhhh, já andou demais. É tude pa trás.
(suspira e põe os olhos em alvo, para conseguir raciocinar)
XX - Vamo lá ver. Agora você seguinfrente, vai ali à rotunda. Vira tude pa trás. Anda sempre a dreito. Nã vira pá cirquelar, nã vira para a nacional e o melhor é em chigando aí perguntar.
(nem comento)
EU - Boa tarde, Rua do Conde da Serra da Tourega???
(a frase vai encurtando...directamente proporcional à esperança de chegar ao destino)
XX - Sêi sim. Vim agorinha mesmo de lá.
(jamais pensámos alguma vez ter vontade de abraçar um senhor com 2 dentes no total, mas há uma primeira vez para tudo)
EU - Ai que bom. É que estou aqui às voltas há tanto tempo.
(ele pendura-se no vidro do carro, pousa o tronco na porta e pisca o olho esquerdo como que "à procura da mira")
XX - Pontantus, vai fazer o seguinte: Segue por aqui fora até ó fundo...
(e começa a disparar mãos e braços em todas as direcções...tudo isto para dentro do meu carro, a trinta centímetros da minha cara e a fazer razias ao meu cabelo)
XX - Quando vir o "café do Gaio" começa a proquerar sítio pa estacionar, que fica mesmo muito pertinho dessa rua.
EU - Ah mas não posso ir de carro mesmo até à rua? Era para descarregar uns sacos pesados...
O "bi"dente dá dois passos atrás, afasta-se do carro, do vidro e de tudo o que é meu (como se de repente eu tivesse tido um ataque de mau hálito) e diz:
XX - Pére lá. A ver sagente sintende. De carro até lá?? Mas não é para a Tourega?
EU - Sim, para a Rua do Conde da Serra da Tourega...
XX - Ah não...eu achei que você ia acolá ao Largo da Tourega, donde fica a estação dos correios cagora até está em obras. Pronto tá bem. Atão não vai práí...
EU - Não...
XX - Você vai mesmo pá Rua do Conde da Serra da Tourega...
EU - Isso.
XX - Pois...mas essa nã sê onde fica.
Criei com este sistema de navegação uma relação de dependência tal, que fico completamente atordoada se me falha. Ficar sem bateria no telemóvel é grave. Não porque me impede de estabelecer ligações telefónicas, mas sim porque me impede de fazer o trajecto RATO - MARQUÊS DE POMBAL sem ir primeiro à Avenida de Roma. Além de que é uma "voz amiga" que nos acalma no trânsito e que nunca se zanga connosco quando não lhe obedecemos. Há sempre solução.
Mas eis que a tragédia acontece, o telefone apaga-se e com "ele", o GPS.
Nota: episódio passado na província, onde resido.
EU - Boa tarde, diz-me onde fica a Rua do Conde da Serra da Tourega?
XX - Ah, nha sôra desculpe mas ê nâ sou daqui.
(claro que "é daqui"...não fosse transportar três sacos de supermercado em cada mão)
EU - Boa tarde, por acaso sabe onde fica a Rua do Conde da Serra da Tourega?
XX - Rua da Tourega do Conde da Serra...mmmm...
(e repete tudo trocado...estou cheia de pressa, só me apetece pôr primeira e avançar...mas é antipático)
XX - Tênhideia que fica ali para os lados do tribunal. Ou atã lá pra baixo pró pé do Ping Dôce...
(não faz ideia nenhuma, até porque o Pingo Doce e o tribunal estão, aos olhos da Rosa dos Ventos, assim como o Porto está para o Algarve)
EU - Boa tarde, sabe indicar-me onde fica a Rua do Conde da Serra da Tourega?
XX - Iiiiiichhhhhh, já andou demais. É tude pa trás.
(suspira e põe os olhos em alvo, para conseguir raciocinar)
XX - Vamo lá ver. Agora você seguinfrente, vai ali à rotunda. Vira tude pa trás. Anda sempre a dreito. Nã vira pá cirquelar, nã vira para a nacional e o melhor é em chigando aí perguntar.
(nem comento)
EU - Boa tarde, Rua do Conde da Serra da Tourega???
(a frase vai encurtando...directamente proporcional à esperança de chegar ao destino)
XX - Sêi sim. Vim agorinha mesmo de lá.
(jamais pensámos alguma vez ter vontade de abraçar um senhor com 2 dentes no total, mas há uma primeira vez para tudo)
EU - Ai que bom. É que estou aqui às voltas há tanto tempo.
(ele pendura-se no vidro do carro, pousa o tronco na porta e pisca o olho esquerdo como que "à procura da mira")
XX - Pontantus, vai fazer o seguinte: Segue por aqui fora até ó fundo...
(e começa a disparar mãos e braços em todas as direcções...tudo isto para dentro do meu carro, a trinta centímetros da minha cara e a fazer razias ao meu cabelo)
XX - Quando vir o "café do Gaio" começa a proquerar sítio pa estacionar, que fica mesmo muito pertinho dessa rua.
EU - Ah mas não posso ir de carro mesmo até à rua? Era para descarregar uns sacos pesados...
O "bi"dente dá dois passos atrás, afasta-se do carro, do vidro e de tudo o que é meu (como se de repente eu tivesse tido um ataque de mau hálito) e diz:
XX - Pére lá. A ver sagente sintende. De carro até lá?? Mas não é para a Tourega?
EU - Sim, para a Rua do Conde da Serra da Tourega...
XX - Ah não...eu achei que você ia acolá ao Largo da Tourega, donde fica a estação dos correios cagora até está em obras. Pronto tá bem. Atão não vai práí...
EU - Não...
XX - Você vai mesmo pá Rua do Conde da Serra da Tourega...
EU - Isso.
XX - Pois...mas essa nã sê onde fica.
segunda-feira, 14 de setembro de 2015
ACHA MAS NÃO PROCURA
EU - Boa tarde. Tem chá de sene?
XX - Mmmmmm...Não faço a menor ideia. Mas acho que não.
EU - ???????
(Sou eu que estou com má vontade ou é isto é de resolver a tiro?)
"Não faço a menor ideia" é uma resposta lamentável, a ser dada por uma funcionária sobre a existência de um artigo na sua própria loja.
"Mas acho que não" é igualmente revoltante porque não se lhe exige que "ache", mas sim que "saiba".
"Não faço a menor ideia + Mas acho que não" são duas frases, que proferidas juntas, deviam dar direito a notícia de abertura de telejornal - EMPREGADA DE LOJA É BRUTALMENTE AGREDIDA POR CLIENTE.
EU - É um chá que regula os intestinos - continuo
XX - Ah, pois, esse acho que não há...
(com os dois braços junto ao corpo e as mãos em conchinha)
XX - Mas temos vários - e aproxima-se do expositor...
(a custo, separa as mãos e aponta)
XX - Temos este chá de malva...
(volta a juntar as "mãozinhas") - pausa...
(aponta outra vez)
XX - Temos chá de boldo...
(volta a juntar as "mãozinhas") - pausa...
(aponta outra vez)
XX - E também este, que tem saído muito, que é o chá de carqueja.
(de substancial interesse aprofundar o conceito de "um chá que tem saído muito", mas não nos dispersemos)
EU - ?????? Mas e chá de sene....não pode confirmar se tem? Era mesmo o que eu queria.
XX - Pois, entendo. Mas acho que não tenho. Eu achava até que já tínhamos tido...mas agora acho que não.
Mais uma conjugação do verbo "achar", seja ela qual for e eu juro que grito. Não "acho", tenho a certeza.
E continua...
XX - Temos também outros produtos. Desculpe a indiscrição. É para si?
EU - ???????
XX - Sabe que há muitos fatores que influem na prisão de ventre. Alimentação, estilo de vida. Por exemplo, alimentação descuidada ou sedentarismo são causadores deste problema.
EU - ???????
(as narinas, parte do corpo que normalmente controlo, começaram a abrir involuntariamente)
XX - Mas como lhe dizia, temos outros produtos para a obstipação que são bastante eficazes. Já experimentou iogurtes probióticos? Ou então estas sementes solúveis para......
(volta à mímica das mãozinhas)
EU - Já experimentei tudo. Era mesmo chá de sene que eu queria.
XX - Pronto, mas então experimente levar estas sementezinhas de linhaça que são......
EU - Obrigada. Boa tarde.
(já na porta, levanta ligeiramente o tom)
XX - Pode sempre experimentar os frutos ricos em fibras. O abacaxi, a ameixa, o kiwi.....
sexta-feira, 11 de setembro de 2015
DIVERSIDADE É RIQUEZA
Se há coisa que enriquece a nossa cultura sociológica é ter três pessoas à nossa frente para pagar no supermercado e, simplesmente, observar.
A primeira delas, é aquele senhor septuagenário, que faz ternura. Camisola de lã grossa de gola redonda (mesmo em Agosto), calças de pinças velhinhas e sapatos pretos, de pele, ortopédicos. Pretende comprar apenas três artigos e mesmo podendo despachar-se mais rápido na caixa para cestos, prefere aquela. Assim consegue ser atendido pela mesma funcionária de sempre, "porque pronto, a gente afeiçoa-se às pessoas". A "pessoa", Susana, no crachá, não lhe devolve a mesma estima e rosna "boa tarde" (está mal disposta porque já está na sua hora de almoço e a colega ainda não a veio render).
No tapete estão 6 maçãs reinetas, vinho tinto de pacote e 2 caixas de adesivos. A conta são 9,30 Eur e o senhor paga devagarinho. Apresenta um porta-moedas de mola de onde tira 5 Eur em nota e os restantes 4,30 Eur em moedas de cêntimos, com a Susana a bufar.
A cliente número dois, está cheia de pressa. Toda ela arfa. Está na casa dos quarenta e cinco, mas a sua aposta é conseguir parecer ter trinta até ao princípio do Verão. Top coleante de renda branca com atilhos no "rego" e jeans tão justos que parece que "vão dar de si" a qualquer momento. Está de auricular no ouvido e fala ininterruptamente ao telefone. A Susana da caixa revira os olhos porque já lhe perguntou três vezes se tem cartão Continente, mas ela não ouve.
No tapete, fundamentalmente muitos legumes e fruta, outros bens essenciais e 1 kilo de ração "Pedigree adulto-raças pequenas". Contrariamente ao perfil, leva também 2 grades de "mines" abertura fácil (foi o marido que mandou). Lá em casa, somos portanto uma família constituída por uma ansiosa, um ditador e um cocker spaniel.
"Ela", a cliente número três, representa na realidade mais quatro para além de si. Porque se faz acompanhar pelo marido, pela mãe, pela sogra e pelo filho...cada um deles com alguma parte do corpo em contacto com o carrinho (uma mão, um cotovelo, ou uma ponta no pé a tocar na roda, no caso da criança). O "contacto físico com o carrinho" está para esta família, como a micção está para o leão macho das savanas. É uma marcação de território. "O carrinho é nosso" e de mais ninguém.
O tapete neste caso faz-se constar de artigos avulsos e sem ligação entre si. Não há qualquer critério de arrumação, nem no carrinho, nem na disposição no tapete. Vai a lixívia, a couve-flor e o gel de banho tudo a eito ali para cima.
- Pêra rocha ou pêra wiliams? Sabe? - pergunta a Susana
- Ah isse não sei! Oh Hélder, fostes tu que pusestes as pêras. Pusestes das nossas ou das estrangeiras?
(Dez minutos nisto em que não se chega a nenhuma conclusão. A Susana regista williams, porque pelo pé, parecem ser).
E agora um fenómeno que me fascina: a febre do separador de "cliente seguinte"!! Os nervos que têm sempre para colocar o separador assim que podem, entre as compras deles e as nossas!! Como se houvesse algum risco de eu querer pagar um bocadinho da conta deles!!
Quando o corredor de circulação estreita, torna-se difícil manterem a política do "um por todos e todos pelo carrinho" e só um elemento pode encabeçar este clã - "ela", claro (porque é quem manda, tem 2 metros de perímetro e mais bigode que o marido).
O filho, Carlos FIlipe (o "i" bem carregado na dicção), entretanto já levou duas palmadas no pescoço porque pediu três vezes pastilhas de melancia. Mesmo que não pedisse merecia apanhar na mesma porque está a olhar para mim desde que ali chegou com cara de pirraça tipo "nós chegámos primeiro".
Levam sacos "deles" e aí sim, resolvem ser arrumadinhos. Haja paciência! O processo de ensacar é de fazer perder a cabeça a um santo. Santa, neste caso, eu, que estou atrás.
"Ela", suspira quando a Susana anuncia o valor total e, perante isto, começa a tirar da carteira talões promocionais uns atrás dos outros, todos eles caducados. Diz que ninguém a avisou que os talões tinham prazo e faz uma cena. Pede para chamar o responsável. A Susana chama a supervisora. A supervisora vem, não resolve nada e rabisca dois papéis que ninguém percebe para que servem. "Ela" paga mas avisa que vai fazer queixa. O Carlos FIlipe leva mais duas palmadas, a sogra começa a abanar-se com as mãos e o Hélder arregala-lhe os olhos como quem diz: "Fanicas agora e levas também".
A cliente número quatro sou eu.
Facílima. Nunca quero "fatura com número de contribuinte", quero "descontar" tudo o que tiver no cartão e respondo sempre o que querem ouvir à pergunta que as Susanas mais gostam de fazer:
- VAI DESEJAR SACO?
- SIM!!!
quarta-feira, 9 de setembro de 2015
QUE SE BODA
Não percebo como é que num mundo evoluído onde já é praticamente possível evacuar os intestinos por wireless do escritório para casa, ainda "se fazem" festas de casamento como "no antigamente", no sentido em que o formato convencional não se alterou nem uma vírgula desde as últimas quatro décadas. Que os noivos decidam submeter-se a sacrifícios medievais, porque assim reza a história, é problema deles, mas que nos obriguem a nós, convidados, a embarcar nesse programa, é massacre.
Tudo começa no "cocktail", que na melhor das hipóteses, tem uma duração média de três horas. Para os homens, resume-se a uma simples acção de exploração do bar (básico, tal como eles próprios), mas para as senhoras é normalmente um exercício de postura impraticável. Nós, Cinderellas, sem sabermos bem como, temos de conseguir (tudo ao mesmo tempo!!!) regar tostinhas de queijo de cabra com doce de abóbora, molhar mini peixinhos da horta em molho tártaro, tirar o espeto da meloa com presunto do "arranjo", agarrar na flute, compor a echarpe e ainda sorrir para o garçon, normalmente careca, roliço e meio curvado, com quem é difícil estabelecer contacto visual. Tudo isto, em equilíbrio num salto alto em agulha, metade enterrado na relva.
Procurar a mesa onde ficamos também é tão complicado como ler esta crónica sendo analfabeto. Tudo se passa num placard com letras "Time new Roman" size 11 e a sua interpretação depende exclusivamente do grau de aleatoriedade com que foi feito...alguns com apelidos de solteiro, outros com apelidos de casado, outros com títulos nobiliários, outros com alcunhas e outros (normalmente os melhores!!) com nomes monossilábicos (tipo "Bia", "Eva" ou "Rui") que correspondem às aquisições amorosas que alguns convidados fizeram na véspera, de quem pouco mais de sabe para além dessa valiosa sílaba única.
"Prazer, sou Isabel" - é das piores frases que podemos ouvir quando chegamos à nossa mesa, que regra geral, tem sempre um ou dois casais que nunca vimos. (reparem na supressão do "a" que é mortal). "Sou Isabel" em vez de "Sou a Isabel", significa desde logo que não queremos ser amigas de "Isabel", que definitivamente quer ser nossa.
O menu em itálico, as argolas de guardanapos enlaçadas, os 4 copos por alturas (2 para o vinho, 1 para a água e 1 para quando não se tem sede), a parafernália de talheres que, a par do menu, anunciam que o jantar será composto por 13 pratos e que só terminará à uma da manhã, é outro castigo arcaico que não merecemos.
"Brinde aos noivos" é outra frase que remonta aos primórdios e que já nem os próprios noivos aguentam ouvir ao passarem pela 16ª mesa. Em esforço por reprimir os arrotos que calaram com tantos brindes, ela com a cauda do vestido entalada na cadeira da "Bia" que nunca tinha visto mais gorda, ele a rondar os 43 graus dentro do fraque de fazenda, respondem: "Ehhhhhhhh" (é o melhor que conseguem), ao levantarem o copo normalmente de vinho tinto, que invariavelmente se entorna justamente na única convidada que tem o vestido cuja textura não permite a remoção de nódoas difíceis. Galo.
O momento da valsa, que eis que chega é mais um sacrifício dos quais os noivos podiam ser dispensados...mas lá está...quem corre por gosto...Ela, enverga a rigidez de uma cana de pesca articulada, tal é a tensão. Mexe apenas as articulações que basicamente rodam sobre um eixo de maleabilidade contrariada. Ele, pai (como manda a lei) exibe sorridente a cana de pesca como triunfo e depois muda de expressão quando lhe calha o inimigo (a sogra da filha). Há ainda que garantir que todos os protagonistas se cruzam na valsa - a noiva com o primeiro marido da mãe, o noivo com a madrasta da sua actual mulher, o sogro com a mãe da madrasta (que mal se mexe).
E agora o ponto alto, aquele pelo qual todos esperamos - a abertura oficial da pista! É aqui que tudo acontece. Que a essência do evento se revela. Pois é ao som do Jobi Joba dos Gipsy Kings que todas as emoções se exteriorizam e que começa a contagem da bomba relógio que vai explodir a qualquer momento. Portanto...é dar tudo por tudo!
É vê-los a todos a perderem a cabeça! A largarem as mesas (não interessa quem lá ficou!!!), possuídos, a correrem, qual histeria colectiva, em passo ritmado, para a pista. Os marqueses suam, as dondocas borrifam nas "mises", os compadres fazem coreografias de can-can (porque é a única que sabem), as "Bias" espetam o rabo e assumem os decotes. Vale tudo menos arrancar olhos.
E é isto. Durante horas a fio. Com os noivos feitos num 8 a rezarem para que haja um corte da EDP e para que o gerador não dispare. E só 12 horas depois do início do certame é que os desgraçados se vão mudar. Mudar?? Mas pra onde?? Mudar de roupa. Também faz parte da tradição. Ela põe um vestido mais "casual" e ele um fato igual ao anterior mas sem abas. É diferente!!!! A "muda" representa também todo um ritual de intervenção por parte dos padrinhos, que os acompanham, cantam hinos, fazem discursos. Outra tortura.
E só quando os empregados tiverem o OK do catering para começar a despejar os cinzeiros, é que os recém casados têm luz verde para se ir embora. Taco a taco. Só neste momento, (em que nunca desejaram que a morte estivesse tão perto) é que podem despedir-se e arrancar. Calma. Falta ainda a noiva chorar e o noivo levar calduços dos irmãos. Não lhes apetece esse número? Estão cansadinhos, não é? Azar. Faz parte.
Agora já podem ir. E cuidado com as curvas, que o vosso carro está cheio de penduricalhos.
Francamente.
Eu sou desta "espécie" que casei "by the book" e não me arrependo.
Também escrevi muitas cartas à mão e não me arrependo. Mas hoje, prefiro um ipad.
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