Se há coisa que enriquece a nossa cultura sociológica é ter três pessoas à nossa frente para pagar no supermercado e, simplesmente, observar.
A primeira delas, é aquele senhor septuagenário, que faz ternura. Camisola de lã grossa de gola redonda (mesmo em Agosto), calças de pinças velhinhas e sapatos pretos, de pele, ortopédicos. Pretende comprar apenas três artigos e mesmo podendo despachar-se mais rápido na caixa para cestos, prefere aquela. Assim consegue ser atendido pela mesma funcionária de sempre, "porque pronto, a gente afeiçoa-se às pessoas". A "pessoa", Susana, no crachá, não lhe devolve a mesma estima e rosna "boa tarde" (está mal disposta porque já está na sua hora de almoço e a colega ainda não a veio render).
No tapete estão 6 maçãs reinetas, vinho tinto de pacote e 2 caixas de adesivos. A conta são 9,30 Eur e o senhor paga devagarinho. Apresenta um porta-moedas de mola de onde tira 5 Eur em nota e os restantes 4,30 Eur em moedas de cêntimos, com a Susana a bufar.
A cliente número dois, está cheia de pressa. Toda ela arfa. Está na casa dos quarenta e cinco, mas a sua aposta é conseguir parecer ter trinta até ao princípio do Verão. Top coleante de renda branca com atilhos no "rego" e jeans tão justos que parece que "vão dar de si" a qualquer momento. Está de auricular no ouvido e fala ininterruptamente ao telefone. A Susana da caixa revira os olhos porque já lhe perguntou três vezes se tem cartão Continente, mas ela não ouve.
No tapete, fundamentalmente muitos legumes e fruta, outros bens essenciais e 1 kilo de ração "Pedigree adulto-raças pequenas". Contrariamente ao perfil, leva também 2 grades de "mines" abertura fácil (foi o marido que mandou). Lá em casa, somos portanto uma família constituída por uma ansiosa, um ditador e um cocker spaniel.
"Ela", a cliente número três, representa na realidade mais quatro para além de si. Porque se faz acompanhar pelo marido, pela mãe, pela sogra e pelo filho...cada um deles com alguma parte do corpo em contacto com o carrinho (uma mão, um cotovelo, ou uma ponta no pé a tocar na roda, no caso da criança). O "contacto físico com o carrinho" está para esta família, como a micção está para o leão macho das savanas. É uma marcação de território. "O carrinho é nosso" e de mais ninguém.
O tapete neste caso faz-se constar de artigos avulsos e sem ligação entre si. Não há qualquer critério de arrumação, nem no carrinho, nem na disposição no tapete. Vai a lixívia, a couve-flor e o gel de banho tudo a eito ali para cima.
- Pêra rocha ou pêra wiliams? Sabe? - pergunta a Susana
- Ah isse não sei! Oh Hélder, fostes tu que pusestes as pêras. Pusestes das nossas ou das estrangeiras?
(Dez minutos nisto em que não se chega a nenhuma conclusão. A Susana regista williams, porque pelo pé, parecem ser).
E agora um fenómeno que me fascina: a febre do separador de "cliente seguinte"!! Os nervos que têm sempre para colocar o separador assim que podem, entre as compras deles e as nossas!! Como se houvesse algum risco de eu querer pagar um bocadinho da conta deles!!
Quando o corredor de circulação estreita, torna-se difícil manterem a política do "um por todos e todos pelo carrinho" e só um elemento pode encabeçar este clã - "ela", claro (porque é quem manda, tem 2 metros de perímetro e mais bigode que o marido).
O filho, Carlos FIlipe (o "i" bem carregado na dicção), entretanto já levou duas palmadas no pescoço porque pediu três vezes pastilhas de melancia. Mesmo que não pedisse merecia apanhar na mesma porque está a olhar para mim desde que ali chegou com cara de pirraça tipo "nós chegámos primeiro".
Levam sacos "deles" e aí sim, resolvem ser arrumadinhos. Haja paciência! O processo de ensacar é de fazer perder a cabeça a um santo. Santa, neste caso, eu, que estou atrás.
"Ela", suspira quando a Susana anuncia o valor total e, perante isto, começa a tirar da carteira talões promocionais uns atrás dos outros, todos eles caducados. Diz que ninguém a avisou que os talões tinham prazo e faz uma cena. Pede para chamar o responsável. A Susana chama a supervisora. A supervisora vem, não resolve nada e rabisca dois papéis que ninguém percebe para que servem. "Ela" paga mas avisa que vai fazer queixa. O Carlos FIlipe leva mais duas palmadas, a sogra começa a abanar-se com as mãos e o Hélder arregala-lhe os olhos como quem diz: "Fanicas agora e levas também".
A cliente número quatro sou eu.
Facílima. Nunca quero "fatura com número de contribuinte", quero "descontar" tudo o que tiver no cartão e respondo sempre o que querem ouvir à pergunta que as Susanas mais gostam de fazer:
- VAI DESEJAR SACO?
- SIM!!!
Ahahahaha!!! Está demais, matas-me!!
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