Cheguei à conclusão que não adianta "bufar" em casa. Sim, não adianta. Aqueles suspiros que damos que no fim fazem trepidar as "beiçolas" (tipo relinchar) enquanto lavamos a loiça, numa de manifesto aos maridos "TAMOS CANSADAS", não adianta. Esqueçam. Senão vejamos:
Relinchamos. "Eles" ouvem. E o inferno começa aqui:
ELE - Qués ajuda?
EU - Quero.
(Funcionou!!!)
ELE - O que é que eu posso fazer?
(Começa logo mal - não queremos que nos perguntem o que precisamos!! Queremos que arregacem as mangas e tomem a iniciativa. Qualquer coisa serve!)
EU - Olha, podes cortar o tomate para a salada, por exemplo.
ELE - Onde é que está o tomate?
(Isto mata)
EU - No frigorífico, na prateleira dos legumes.
(Por um triz não o mandei procurar no armário dos pirex, só para chatear)
ELE - É isto?
(Morte nº 2. Não percebo a dúvida)
EU - É.
ELE - Onde é que está a faca?
(Morte nº 3)
EU - Na gaveta das facas.
ELE - Se calhar vou cortar com esta, porque tem serrilha.
(Morte nº 4 - mudou o registo de "interrogativo" para "afirmativo", mas ainda assim dá conhecimento do procedimento)
ELE - Como é que queres que eu corte?
(silêncio)
ELE - Hãaã? Como é que queres que eu corte?
(silêncio)
(fecho os olhos, respiro fundo)
EU - É indiferente.
(Não me peçam respostas mais compridas do que isto, que eu estou quase a rebentar)
É neste momento que pela primeira vez tomo consciência que a minha cozinha é musical. Tudo faz barulho. A gaveta a fechar, o manuseamento da tábua, os vários golpes. A ideia é mostrar serviço e "eles" precisam de se fazer ouvir.
ELE - Será que chega?
Olho para o resultado. Se disser que vejo, com boa vontade, seis rodelas cortadas, não estarei a exagerar.
EU - Quantos cortaste???
ELE - Um....Corto mais??
(Morte nº 5 - o confronto com a forretice)
EU - Sim.
ELE - Mais um?
(Morte nº 6 - o confronto com a confirmação da forretice)
EU - Não. Mais três.
ELE - O pior é se sobra...porque isto depois de temperado...
(Morte nº 7 - ter de fingir que lhe reconheço o uso desta frase, como sendo dele)
EU - Corta mais três.
ELE - Está bom assim?
Nem olho.
EU - Está óptimo.
(Isto foi um pesadelo que acabou e eu estou quase a acordar)
ELE - Não se tempera?
(Morte nº 8 - the killer is back - o emprego do "se" que se destina a mim, mas sem atribuição de sujeito)
EU - Eu já tempero.
ELE - O que é que faço a "isto"?
(Morte nº 9 - "isto" é a tábua e afins - chamar as coisas pelos nomes parece que a "eles" os diminui)
EU - Põe no lava-loiças.
ELE - Mas cabe? É que "isso" está cheio de coisas.
(Morte nº 10 - não estou a conseguir "dar vasão" e sou repreendida por cima)
EU - Deixa estar. Vai-te sentando e leva a lasanha para a mesa
(Não fosse a aliança, já o tinha mandado pelo ralo do lava-loiças junto com as grainhas...ele cabia!)
ELE - É lasanha? Ah que azar. Foi o que comi ao almoço.
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