quarta-feira, 9 de setembro de 2015

QUE SE BODA

Não percebo como é que num mundo evoluído onde já é praticamente possível evacuar os intestinos por wireless do escritório para casa, ainda "se fazem" festas de casamento como "no antigamente", no sentido em que o formato convencional não se alterou nem uma vírgula desde as últimas quatro décadas. Que os noivos decidam submeter-se a sacrifícios medievais, porque assim reza a história, é problema deles, mas que nos obriguem a nós, convidados, a embarcar nesse programa, é massacre.
 
Tudo começa no "cocktail", que na melhor das hipóteses, tem uma duração média de três horas. Para os homens, resume-se a uma simples acção de exploração do bar (básico, tal como eles próprios), mas para as senhoras é normalmente um exercício de postura impraticável. Nós, Cinderellas, sem sabermos bem como, temos de conseguir (tudo ao mesmo tempo!!!) regar tostinhas de queijo de cabra com doce de abóbora, molhar mini peixinhos da horta em molho tártaro, tirar o espeto da meloa com presunto do "arranjo", agarrar na flute, compor a echarpe e ainda sorrir para o garçon, normalmente careca, roliço e meio curvado, com quem é difícil estabelecer contacto visual. Tudo isto, em equilíbrio num salto alto em agulha, metade enterrado na relva.
 
Procurar a mesa onde ficamos também é tão complicado como ler esta crónica sendo analfabeto. Tudo se passa num placard com letras "Time new Roman" size 11 e a sua interpretação depende exclusivamente do grau de aleatoriedade com que foi feito...alguns com apelidos de solteiro, outros com apelidos de casado, outros com títulos nobiliários, outros com alcunhas e outros (normalmente os melhores!!) com nomes monossilábicos (tipo "Bia", "Eva" ou "Rui") que correspondem às aquisições amorosas que alguns convidados fizeram na véspera, de quem pouco mais de sabe para além dessa valiosa sílaba única.
 
"Prazer, sou Isabel" - é das piores frases que podemos ouvir quando chegamos à nossa mesa, que regra geral, tem sempre um ou dois casais que nunca vimos. (reparem na supressão do "a" que é mortal). "Sou Isabel" em vez de "Sou a Isabel", significa desde logo que não queremos ser amigas de "Isabel", que definitivamente quer ser nossa.
O menu em itálico, as argolas de guardanapos enlaçadas, os 4 copos por alturas (2 para o vinho, 1 para a água e 1 para quando não se tem sede), a parafernália de talheres que, a par do menu, anunciam que o jantar será composto por 13 pratos e que só terminará à uma da manhã, é outro castigo arcaico que não merecemos.
 
"Brinde aos noivos" é outra frase que remonta aos primórdios e que já nem os próprios noivos aguentam ouvir ao passarem pela 16ª mesa. Em esforço por reprimir os arrotos que calaram com tantos brindes, ela com a cauda do vestido entalada na cadeira da "Bia" que nunca tinha visto mais gorda, ele a rondar os 43 graus dentro do fraque de fazenda, respondem: "Ehhhhhhhh" (é o melhor que conseguem), ao levantarem o copo normalmente de vinho tinto, que invariavelmente se entorna justamente na única convidada que tem o vestido cuja textura não permite a remoção de nódoas difíceis. Galo.
 
O momento da valsa, que eis que chega é mais um sacrifício dos quais os noivos podiam ser dispensados...mas lá está...quem corre por gosto...Ela, enverga a rigidez de uma cana de pesca articulada, tal é a tensão. Mexe apenas as articulações que basicamente rodam sobre um eixo de maleabilidade contrariada. Ele, pai (como manda a lei) exibe sorridente a cana de pesca como triunfo e depois muda de expressão quando lhe calha o inimigo (a sogra da filha). Há ainda que garantir que todos os protagonistas se cruzam na valsa - a noiva com o primeiro marido da mãe, o noivo com a madrasta da sua actual mulher, o sogro com a mãe da madrasta (que mal se mexe).
 
E agora o ponto alto, aquele pelo qual todos esperamos - a abertura oficial da pista! É aqui que tudo acontece. Que a essência do evento se revela. Pois é ao som do Jobi Joba dos Gipsy Kings que todas as emoções se exteriorizam e que começa a contagem da bomba relógio que vai explodir a qualquer momento. Portanto...é dar tudo por tudo!
É vê-los a todos a perderem a cabeça! A largarem as mesas (não  interessa quem lá ficou!!!), possuídos, a correrem, qual histeria colectiva, em passo ritmado, para a pista. Os marqueses suam, as dondocas borrifam nas "mises", os compadres fazem coreografias de can-can (porque é a única que sabem), as "Bias" espetam o rabo e assumem os decotes. Vale tudo menos arrancar olhos.
 
E é isto. Durante horas a fio.  Com os noivos feitos num 8 a rezarem para que haja um corte da EDP e para que o gerador não dispare. E só 12 horas depois do início do certame é que os desgraçados se vão mudar. Mudar?? Mas pra onde?? Mudar de roupa. Também faz parte da tradição. Ela põe um vestido mais "casual" e ele um fato igual ao anterior mas sem abas. É diferente!!!! A "muda" representa também todo um ritual de intervenção por parte dos padrinhos, que os acompanham, cantam hinos, fazem discursos. Outra tortura.
 
E só quando os empregados tiverem o OK do catering para começar a despejar os cinzeiros, é que os recém casados têm luz verde para se ir embora. Taco a taco.  Só neste momento, (em que nunca desejaram que a morte estivesse tão perto) é que podem despedir-se e arrancar. Calma. Falta ainda a noiva chorar e o noivo levar calduços dos irmãos. Não lhes apetece esse número? Estão cansadinhos, não é? Azar. Faz parte.
 
Agora já podem ir. E cuidado com as curvas, que o vosso carro está cheio de penduricalhos.
 
Francamente.
Eu sou desta "espécie" que casei "by the book" e não me arrependo.
Também escrevi muitas cartas à mão e não me arrependo. Mas hoje, prefiro um ipad.

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